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“A ideia é minha não protege nada”: criadores crescem na internet, mas ignoram risco que pode custar tudo

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    Portal Entre Elas
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 3 dias

Com o boom da economia criativa, especialistas alertam: falta de contrato, uso indevido de conteúdo e ausência de estrutura jurídica já estão gerando disputas, perdas financeiras e processos



Postar, crescer, fechar parceria, vender. Nunca foi tão fácil transformar criatividade em dinheiro. E nunca foi tão fácil perder tudo.

Com a explosão da economia criativa, que movimenta áreas como produção de conteúdo, design, marketing digital, audiovisual e moda, milhares de brasileiros passaram a operar como verdadeiras empresas dentro da internet. Mas, na prática, a maioria ainda funciona como se estivesse começando.


Sem contrato. Sem regra. Sem proteção. Para o advogado Dr. Danilo Melo, o erro é claro e mais comum do que parece: “o maior erro é operar como empresa sem se comportar como empresa.”


Segundo ele, o problema começa de forma silenciosa. Parcerias são feitas na confiança, receitas são divididas sem critério, projetos são construídos em conjunto. Tudo sem definição clara de quem é dono de quê.


“A galera fecha parceria, divide receita, contrata gente, lança produto… tudo na base da ‘confiança’. O problema é que, quando dá certo, ninguém discute, mas quando dá errado, vira guerra”, explica o advogado.


E, nesse cenário, o ponto mais crítico costuma ser ignorado desde o início: “o erro mais comum que eu vejo: não definir claramente quem é dono de quê - dinheiro, conteúdo, base de leads, propriedade intelectual, marca.”


Usar conteúdo da internet pode dar processo


Outro comportamento comum e muito perigoso é o uso de conteúdos de terceiros sem autorização. Na lógica das redes sociais, tudo parece disponível. Mas na realidade não está.


“Sim, pode ser processado e acontece muito mais do que parece”, alerta o advogado. “O fato de estar na internet não torna algo público ou livre. Alguém criou aquilo, e isso já gera direito.”


A linha que separa inspiração de infração é mais simples do que muitos imaginam: “inspiração é definida quando você cria algo novo com base em referências. Já o uso ilegal acontece quando você usa algo de alguém sem autorização, mesmo que adaptado.” E hoje, identificar isso ficou mais fácil. “Música, imagem, vídeo… tudo tem dono. E, com ferramentas de rastreamento, isso está cada vez mais fácil de identificar”, conclui.


Parceria de WhatsApp vale e é exatamente por isso que dá problema


Muita gente acredita que, por não existir contrato formal, não existe risco. Na prática, é o contrário. “Sim, são válidas. E justamente por isso viram problema”, explica. Uma conversa no WhatsApp pode ser usada como prova de um acordo. Ou seja, existe um contrato, mas verbal. E, como acontece em todos os casos, o problema desses acordos está na falta de clareza sobre diversos temas, deixando uma avenida de interpretações possíveis.

E aí começam os conflitos clássicos:- Eu achei que era 50/50- Mas não combinamos isso- O produto que criamos não é nosso?- De quem são os leads?

“O problema não é a validade, é a falta de clareza. E quando isso vira discussão jurídica, cada detalhe da conversa passa a ser interpretado.”


“A ideia é minha” não protege quase nada


Entre criadores, uma das frases mais comuns também é uma das mais perigosas. “A ideia é minha.” Mas, juridicamente, isso não ajuda muito. A famosa frase “a ideia é minha” muito pouco te protege, afirma o advogado. “O que protege é ter um ajuste muito claro sobre todas as questões que envolvem essa relação, seja sociedade, parceria ou pretsação de serviços”, conclui.


Ou seja, não basta pensar, falar “de boca”, é preciso registrar, estruturar e conseguir demonstrar. Na prática, disputas de direitos autorais e propriedade intelectual, não são sobre quem teve a ideia primeiro, mas sobre quem consegue provar: “quem criou primeiro, quem consegue demonstrar isso e como isso foi usado.”

Sem registro, sem histórico e sem contrato, a disputa começa - e alguém sempre sai em desvantagem.


Crescimento sem estrutura vira um rápido problema


O cenário mais preocupante, segundo o especialista, é o de criadores que já estão ganhando dinheiro, mas ainda operam de forma totalmente vulnerável.

“Tem muita gente faturando alto sem ter as contratações organizadas, sem definição sobre a propriedade intelectual, com parcerias mal definidas, estrutura societária inexistente e zero proteção de marca.”


Enquanto tudo está funcionando, o problema não aparece. Mas basta um conflito, uma cobrança ou um crescimento mais acelerado para que ele surja e com impacto direto no bolso e na reputação. “O risco real aparece quando se dá conflito com sócio, quando alguém pede participação, quando surge um processo por uso indevido de marca, alegação de sociedade de fato.”

O especialista conclui: "eu sei bem que no começo a grana é curta, tudo é um sonho, uma forma de fazer um dinheiro extra, mas quando esse negócio cresce, ganha relevância profissional e financeira, é preciso dar a devida importância e segurança que ele precisa."


E o resumo é direto: “Negócio digital cresce rápido. Mas os problemas, também.”

 

Por Dr. Danilo Melo – Advogado especializado em Creator Economy, Direito Digital, Direito do Consumidor, Contratos, Direito Societário e Proteção de Dados (LGPD) – OAB/SP 321.388.

 
 
 

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